VARIÁVEIS DO ENSINO-APRENDIZAGEM
Pode-se considerar o
ensino e a aprendizagem de Língua Portuguesa, como prática pedagógica,
resultantes da articulação de três variáveis[2]
: o aluno; os conhecimentos com os quais se opera nas práticas de linguagem; a
mediação do professor.
O primeiro elemento
dessa tríade – o aluno – é o sujeito da ação de aprender, aquele que age com e sobre o
objeto de conhecimento. O segundo elemento – o objeto de conhecimento – são os conhecimentos discursivo-textuais e lingüísticos
implicados nas práticas sociais de linguagem. O terceiro elemento da tríade é a
prática educacional do professor e da escola que organiza a mediação entre
sujeito e objeto do conhecimento.
O objeto de ensino e, portanto, de
aprendizagem é o conhecimento lingüístico e discursivo com o qual o sujeito
opera ao participar das práticas sociais mediadas pela linguagem. Organizar
situações de aprendizado, nessa perspectiva, supõe: planejar situações de
interação nas quais esses conhecimentos sejam construídos e/ou tematizados;
organizar atividades que procurem recriar na sala de aula situações
enunciativas de outros espaços que não o escolar, considerando-se sua
especificidade e a inevitável transposição didática que o conteúdo sofrerá;
saber que a escola é um espaço de interação social onde práticas sociais de
linguagem acontecem e se circunstanciam, assumindo características bastante
específicas em função de sua finalidade: o ensino.
Ao professor cabe planejar, implementar
e dirigir as atividades didáticas, com o objetivo de desencadear, apoiar e
orientar o esforço de ação e reflexão do aluno, procurando garantir
aprendizagem efetiva. Cabe também assumir o papel de informante e de
interlocutor privilegiado, que tematiza aspectos prioritários em função das
necessidades dos alunos e de suas possibilidades de aprendizagem.
CONDIÇÕES PARA O TRATAMENTO DO OBJETO DE ENSINO: O
TEXTO COMO UNIDADE E A DIVERSIDADE DE GÊNEROS
Toda educação comprometida com o exercício da
cidadania precisa criar condições para que o aluno possa desenvolver sua
competência discursiva[3] .
Um dos aspectos da competência discursiva é o
sujeito ser capaz de utilizar a língua de modo variado, para produzir
diferentes efeitos de sentido e adequar o texto a diferentes situações de
interlocução oral e escrita. É o que aqui se chama de competência lingüística[4] e
estilística[5]. Isso,
por um lado, coloca em evidência as virtualidades das línguas humanas: o fato
de que são instrumentos flexíveis que permitem referir o mundo de diferentes
formas e perspectivas; por outro lado, adverte contra uma concepção de língua
como sistema homogêneo, dominado ativa e passivamente por toda a comunidade que
o utiliza. Sobre o desenvolvimento da competência discursiva, deve a escola organizar
as atividades curriculares relativas ao ensino-aprendizagem da língua e da
linguagem.
A importância e o valor dos usos da linguagem são
determinados historicamente segundo as demandas sociais de cada momento.
Atualmente, exigem-se níveis de leitura e de escrita diferentes dos que
satisfizeram as demandas sociais até há bem pouco tempo –
e tudo indica que essa exigência tende a ser crescente. A necessidade de
atender a essa demanda, obriga à revisão substantiva dos métodos de ensino e à
constituição de práticas que possibilitem ao aluno ampliar sua competência
discursiva na interlocução.
Nessa perspectiva, não é possível tomar como
unidades básicas do processo de ensino as que decorrem de uma análise de
estratos – letras/fonemas, sílabas,
palavras, sintagmas, frases – que, descontextualizados, são
normalmente tomados como exemplos de estudo gramatical e pouco têm a ver com a
competência discursiva. Dentro desse marco, a unidade básica do ensino só pode
ser o texto.
Os textos organizam-se sempre dentro de certas
restrições de natureza temática, composicional e estilística, que os
caracterizam como pertencentes a este ou aquele gênero. Desse modo, a noção de
gênero, constitutiva do texto, precisa ser tomada como objeto de ensino.
Nessa perspectiva, necessário contemplar, nas
atividades de ensino, a diversidade de textos e gêneros, e não apenas em função
de sua relevância social, mas também pelo fato de que textos pertencentes a
diferentes gêneros são organizados de diferentes formas.
A compreensão oral e escrita, bem como a produção
oral e escrita de textos pertencentes a diversos gêneros, supõem o
desenvolvimento de diversas capacidades que devem ser enfocadas nas situações
de ensino. É preciso abandonar a crença na existência de um gênero prototípico
que permitiria ensinar todos os gêneros em circulação social.
[1] PCNs de
Língua Portuguesa – 5.ª a 8.ª séries
[2] Para aprofundamento das relações professor/aluno/conhecimento,
consultar Introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais
[3] Competência
discursiva refere-se a um "sistema de contratos semânticos"
responsável por uma espécie de "filtragem" que opera os conteúdos em
dois domínios interligados que caracterizam o dizível: o universo intertextual
e os dispositivos estilísticos acessíveis à enunciação dos diversos discursos.
[4]
Competência lingüística refere-se aos saberes que o falante/intérprete possui
sobre a língua de sua comunidade e utiliza para construção das expressões que
compõem os seus textos, orais e escritos, formais ou informais, independentemente
de norma padrão, escolar ou culta.
[5] Competência estilística é a capacidade de o
sujeito escolher, dentre os recursos expressivos da língua, os que mais convêm
às condições de produção, à destinação, finalidades e objetivos do texto e ao
gênero e suporte.
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